Café de especialidade — Alemanha

Uma bica custa setenta cêntimos e está a trinta passos de qualquer porta. Berlim funciona ao contrário: cidade plana e sem centro, onde duas boas chávenas ficam a vinte minutos de U-Bahn uma da outra e quem torra também serve ao balcão. Faz o dia por bairros e ele aguenta-se.

82cafés
21torrefações
1cidade

Cidades com café de especialidade — Alemanha

Vinte minutos entre chávenas

Não há aqui uma rua do café nem um bairro que tenha ganho a discussão. Kreuzberg, Neukölln, Mitte, Prenzlauer Berg, Friedrichshain e Wedding comportam-se como vilas com horário e clientela próprios, e o que os separa é mais do que o mapa deixa ver: de Kottbusser Tor a Kastanienallee parece um passeio no ecrã do telemóvel e come quase uma hora a pé. Em Lisboa troca-se de café ao virar da esquina; aqui cada chávena a mais custa pernas ou bilhete. Berlim é também a única cidade alemã com cafés mapeados nestas páginas — Hamburgo, Munique, Colónia, Leipzig e as restantes ainda não entraram —, por isso qualquer roteiro tirado daqui fica dentro de uma cidade só, que é como convém fazê-lo de qualquer maneira. Dois bairros vizinhos por dia: um a pé, o outro a poucas paragens.

A torra acontece na sala ao lado

Bonanza, Five Elephant, 19grams, Fjord, Cebe, Impala e Andraschko torram em Berlim, e quem torrou costuma ser quem serve. Isso muda o que vale a pena perguntar ao balcão: quando chegou o lote, o que veio substituir, o que estão a afinar esta semana — e não qual é o melhor. Se o mesmo café estiver em espresso e em filtro, prova os dois; a diferença entre eles é a coisa mais clara que um balcão com torrefação própria consegue mostrar, e ninguém ali precisa de remeter para um fornecedor. As salas parecem oficinas antes de parecerem cafés: betão à vista, o tambor na sala ou um piso abaixo, bancos corridos e, ao domingo por volta das onze, fila à porta. Conta com tempo sentado, não com a bica despachada de pé.

Longe de Berlim, só o saco

Alguns torradores alemães desta lista ficam bem fora da cidade e não têm balcão no mapa: Elbgold em Hamburgo, Hoppenworth & Ploch em Frankfurt am Main, BEANLAB em Monheim am Rhein. Por agora são nomes de prateleira — vale a encomenda depois de perceberes o que gostas nos balcões berlinenses, para teres com que comparar. E se comprares grão pela cidade, compra ao fim do dia e não ao início; ninguém aproveita o segundo bairro com um quilo às costas.

Duas coisas seguram um dia de café em Berlim. Sai cedo: entre a abertura e as dez e meia é a única janela com que podes contar, antes de os portáteis tomarem as mesas e o pequeno-almoço se instalar por duas horas. E leva dinheiro. Muitas salas pequenas ainda o preferem, e a que o exige raramente é aquela que estavas disposto a saltar.